quinta-feira, 19 de outubro de 2017

CAFÉ QUENTE, NO TREM, de Clarice Lispector







Levantou-se, caminhou com o barulho das rodas, os movimentos inclinados contra a direção do trem; de algum modo achava divertido o esforço que fazia e talvez por isso sorriu como se completasse algum desígnio; penetrou no carro restaurante, pediu café ajeitando o chapéu empoeirado, assumindo vagamente uma atitude de pessoa alta, grande e bem disposta. Sentia uma clara paz aberta como um campo ignorado e tranquilo; aos poucos esqueceu-se de si própria e passou a observar com dócil interesse as coisas do trem, uma mulher mastigando. Raras fagulhas atravessavam com rápida violência as janelas, aquele já-já-já das rodas que pareciam um rumor interno. Entardecia, o trem corria pelos campos já sem cor. O restaurante estava quase vazio, sobre as toalhas manchadas as moscas pousavam, tudo era áspero e seco de poeira. Foi com um sobressalto que notou o próprio abandono. Perscrutou-se com ligeira ansiedade. Alguma coisa imperceptível já se transformara no entanto. Com alguma inquietação ela se escutava, o ser acordado, profundamente intranquilo. Atentava de leve; desvanecera-se a naturalidade das coisas ao seu redor, como o último laivo de morno prazer sonolento ao lavar o rosto, agora a própria existência era sacudida, dura e várias vezes quebrada. Ela mesma sentia-se intimamente sem conforto, as entranhas despertas como se tivesse os sapatos molhados ou a roupa suada presa às costas — num desgosto desassossegado afastou-se do encosto do banco. Compreendia numa decepção sem força e estupefata, já um começo de profundo cansaço fulgurando nos olhos, compreendia que não chegara a nenhuma posse, que a partida para a cidade não era simbólica. E a sensação que experimentara há poucos minutos? buscava ela esperançosa. Mas não, não — e ela não estava à altura de compreender seus pensamentos — na verdade o que havia de intocado, desperto e confuso nela mesma ainda tinha forças para fazer nascer um tempo de espera mais longo que o da infância até os seus dias, de tal modo ela não chegara a nenhum ponto, dissolvida vivendo — isso assustava-a cansada e desesperada do próprio fluir instável e isso era algo horrivelmente inegável, e isso no entanto a aliviava de um modo estranho, como a sensação a cada manhã de não ter morrido à noite. Com um despercebido movimento de desânimo perguntava-se confusamente se esqueceria para sempre o que sentira afinal de tão firme e sereno e cuja espécie já agora ela não podia precisar com nitidez, num começo de esquecimento. Não, não esqueceria, agarrava-se ela a si mesma sem saber, apenas como usá-lo? como viver disso? jamais poderia gastá-lo e isso era também algo inegável, o trem carregava-a para a frente como perdendo-a de si própria, as rodas resfolegavam, o rapaz do restaurante inclinava o corpo segundo o movimento do vagão, equilibrando-se, desequilibrando-se, o café, era quente, sim, certamente a primeira vez no mundo que num vagão restaurante alguém conseguia tomar café quente, o que era uma coisa de se sacudir a cabeça de leve, surpresa, como ela fazia agora agitando a fita vermelha do chapéu marrom.



(O Lustre)




(Ilustração: Daniel Dumetz - La femme au chapeau brun)







segunda-feira, 16 de outubro de 2017

RECOMEÇO, de Moacy Cirne







Sei do sonho:

procuro tua sombra na

penumbra

da memória líquida



e nada encontro.

A lua não é vermelha

não é violeta



não é verdecoisa

mas

os loucos da madrugada



anunciam as primeiras águas da manhã.

Sei do sonho?

Tua sombra pagã

é um corpo que me foge



das mãos cansadas de espantos

e abismos.

A árvore sonolenta

anoitece os meus delírios.



Não te vejo na claridade

do silêncio.



O sol é um pássaro ferido



na solidão



de meus gestos de meus gritos



e a hora cruviana



é uma graviola

grávida



de aromas e carnes



pronta para ser saboreada.

Sei.

Não foi um sonho.



Como encontrar,

então,

na



arquitetura fluvial

de meus quereres,

as linhas



e curvas



de teu corpo barrento-canela?

Ah, não! Ah, sim!

Existe



um



grande sertão



nas veredas da minha paixão.

E eu sei do sonho.

Procuro tua sombra líquida

e nada encontro.

A lua não é verdeluã

mas



tua sombra pagã



anoitece os meus delírios.

Como encontrar,



sol e solidão,



a arquitetura colonial



de teu corpo fluvial?

Como encontrar,



no silêncio de meus gritos,



tua sombra teus aromas tuas carnes?

Sim,

não.



Tua memória vermelha



é uma sombra grávida



de morenezas e reentrâncias



azuis.

Docemente azuis.

Barrentas e azuis.



(Qualquer tudo; 1993)



(Ilustração: foto de Elias Moraes)


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A MORTE DE BERGOTTE, de Marcel Proust






Fiquei sabendo que naquele dia ocorrera uma morte que me causou bastante pesar, a de Bergotte. Sabia-se que a sua doença vinha de muito tempo. Não evidentemente aquela que tivera primeiro e era natural. A natureza parece quase incapaz de provocar doenças que não sejam bem curtas. Mas a medicina se atribuiu a arte de prolongá-las. Os remédios, a remissão que proporcionam, o mal-estar que a sua interrupção faz renascer compõem um simulacro de doença que o hábito do paciente acaba por estabilizar, por estilizar, assim como as crianças têm acessos de tosse regulares muito tempo depois de serem curadas da coqueluche. Depois os remédios fazem menos efeito, sua dose é aumentada, não fazem mais nenhum bem, mas começaram a fazer mal graças a essa indisposição constante. A natureza não lhes teria oferecido uma duração tão longa. É uma grande maravilha que a medicina quase iguale a natureza e possa forçar a ficar de cama, a continuar a tomar um medicamento mesmo sob o risco de morte. Desde então a doença artificialmente implantada fincou raiz, tornou-se uma doença secundária mas verdadeira, com a única diferença que as doenças naturais se curam, mas jamais as criadas pela medicina, pois ela ignora o segredo da cura.

Fazia anos que Bergotte não saía mais de casa. Aliás, jamais gostara da sociedade, ou gostara apenas um dia, para desprezá-la como tudo o mais e da maneira que era a sua, a saber: não desprezar porque não se pode obter, mas logo depois de haver obtido. Vivia com tal simplicidade que não se suspeitava a que ponto era rico, e caso isso fosse sabido se cometeria outro engano ao acreditar que era avaro, pois nunca ninguém foi tão generoso. Ele o era sobretudo com mulheres, com mocinhas, melhor dizendo, que ficavam envergonhadas de receber tanto por tão pouco. Ele se desculpava a seus próprios olhos porque sabia que nunca poderia produzir tão bem quanto na atmosfera de se sentir enamorado. O amor – não, é exagero – o prazer um pouco entranhado na carne ajuda o trabalho literário porque aniquila os outros prazeres, por exemplo os prazeres da sociedade, que são os mesmos para todo mundo. E mesmo se esse amor traz desilusões, ao menos assim ele agita a superfície da alma, que sem isso correria o risco de estagnar. O desejo então não é inútil ao escritor, para primeiro se afastar dos outros homens e se conformar a eles, e em seguida para devolver algum movimento a uma máquina espiritual que, passada certa idade, tende a se imobilizar. Não se chega a ser feliz, mas se percebe as razões que o impedem de ser e que nos continuariam invisíveis sem essas aberturas bruscas das brechas da decepção. E é claro que os sonhos não são realizáveis, bem sabemos; não os teríamos talvez sem o desejo, e é útil tê-los para vê-los fracassar e para que o seu fracasso nos seja instrutivo. Bergotte também se dizia: “Gasto mais que multimilionários com mocinhas, mas os prazeres ou as decepções que elas me dão me fazem escrever um livro que me rende dinheiro.” Em termos econômicos esse raciocínio era absurdo, mas sem dúvida ele encontrava algum contentamento em transmutar assim ouro em carícias e carícias em ouro. E depois, vimos no momento da morte da minha avó, sua velhice fatigada amava o repouso. Ora, na sociedade não há nada exceto conversas. Elas ali são estúpidas, mas têm o poder de suprimir as mulheres, que não são mais que perguntas e respostas. Fora da sociedade, as mulheres voltam a ser o que é tão repousante para o velho fatigado, um objeto de contemplação.

Em todo caso, agora não se tratava de mais nada disso. Disse que Bergotte não saía mais de casa, e quando se levantava uma hora no seu quarto era todo enrolado em xales, mantas, tudo aquilo que se usa para se cobrir no momento de se expor a um frio intenso e pegar um trem. Ele se desculpava com os raros amigos que deixava entrar e, mostrando seus tartans, suas cobertas, dizia alegremente: “O que você quer, meu caro, Anaxágoras já disse, a vida é uma viagem.”[1] Ele ia assim se esfriando progressivamente, pequeno planeta que oferecia uma imagem antecipada dos últimos dias do grande quando, pouco a pouco, o calor se retirará da Terra, e depois a vida. A ressurreição terá chegado então ao fim, pois por mais que brilhem as obras dos homens nas gerações futuras, será preciso que ainda haja homens. Se certas espécies animais resistem por mais tempo ao frio invasor, quando não houver mais homens, e supondo que a glória de Bergotte tenha durado até lá, bruscamente ela se apagará para todo o sempre. Não serão os últimos animais que o lerão, pois é pouco provável que, como os apóstolos em Pentecostes, eles possam compreender a linguagem dos diversos povos humanos sem a ter aprendido.

Nos meses que precederam sua morte, Bergotte sofria de insônias, e o que é pior, logo ao adormecer de pesadelos que, se acordava, faziam com que evitasse dormir de novo. Por um longo tempo gostou de sonhos, mesmo de sonhos ruins, porque graças a eles, graças à contradição com a realidade que se tem no estado de vigília, eles nos dão, o mais tardar assim que se acorda, a sensação profunda de que dormimos. Mas os pesadelos de Bergotte não eram assim. Quando antes falava de pesadelos, referia-se a coisas desagradáveis que se passavam no seu cérebro. Agora, é como vindos de fora que percebia uma mão munida de um esfregão molhado que, passada no seu rosto por uma mulher má, se esforçava em acordá-lo, cócegas insuportáveis nas ancas, a fúria – pois Bergotte havia murmurado dormindo que ele conduzia mal – de um cocheiro louco de raiva que se jogava sobre o escritor e lhe mordia os dedos, os serrava. Enfim, assim que no seu sono a obscuridade era suficiente, a natureza fazia uma espécie de ensaio sem figurinos do ataque de apoplexia que o levaria: Bergotte entrava de viatura sob o pórtico do novo palacete dos Swann, queria descer. Uma vertigem fulminante o pregava a seu banco, o porteiro tentava ajudá-lo a descer, ele permanecia sentado sem poder se levantar, firmar as pernas. Tentava se agarrar ao pilar de pedra que estava à sua frente, mas não achava nele apoio suficiente para se pôr de pé. Consultou médicos que, lisonjeados por serem chamados por ele, viram nas suas virtudes de grande trabalhador (há vinte anos já não fazia nada), no seu cansaço excessivo, a causa de seu mal-estar. Eles o aconselharam a não ler contos aterrorizantes (ele não lia nada), a aproveitar mais o sol “indispensável à vida” (ele devia alguns anos de melhora relativa tão somente a seu enclausuramento em casa), a se alimentar mais (o que o fez emagrecer e alimentou sobretudo seus pesadelos).Um dos seus médicos, tendo o dom da contradição e da implicância, quando Bergotte o via na ausência dos outros, e para não constrangê-lo lhe submetia como ideias próprias as que os outros lhe haviam aconselhado, o médico do contra, achando que Bergotte tentava que receitasse algo que lhe agradasse, o proibia de imediato, e frequentemente com razões fabricadas com tal rapidez para as necessidades da causa que, diante das objeções materiais que lhe fazia Bergotte, o doutor do contra era obrigado a se contradizer na mesma frase, mas com razões novas reforçava a mesma proibição. Bergotte voltava a um dos primeiros médicos, homem metido a espirituoso, sobretudo diante de um dos mestres da pena, e se Bergotte insinuava “Parece-me, no entanto, que o doutor X me disse – noutro tempo, bem entendido – que isso poderia me congestionar o rim e o cérebro…”, sorria maliciosamente, levantava o dedo e proferia: “Eu disse usar, e não abusar. Todo remédio, é claro, se exageramos, torna-se uma arma de dois gumes.” Há no nosso corpo certo instinto daquilo que nos é salutar, como no nosso coração daquilo que é um dever moral, e que nenhuma autorização de um doutor em medicina ou teologia pode substituir. Sabemos que os banhos frios nos fazem mal, gostamos deles, sempre encontraremos um médico para aconselhá-los, e não para impedir que nos façam mal. De cada um dos seus médicos Bergotte obteve o que, por discernimento, ele se proibira durante anos. Ao fim de algumas semanas os acidentes de outrora haviam reaparecido, e os recentes tinham se agravado. Atormentado por um sofrimento de todos os minutos, ao qual se somava a insônia entrecortada por breves pesadelos, Bergotte não fez mais vir nenhum médico e tentou com sucesso, mas com excesso, diferentes narcóticos, lendo com confiança a bula que acompanha cada um deles, bula que proclamava a necessidade do sono mas insinuava que todos os produtos que o provocam (salvo o contido no frasco que ela envolvia, o qual nunca causava intoxicação) eram tóxicos, e por isso tornavam o remédio pior que o mal. Bergotte tentou todos. Alguns são de uma família diferente daqueles aos quais estamos habituados, derivados por exemplo da amila e do etilo. Não se absorve o produto novo, de composição totalmente distinta, senão com a deliciosa expectativa do desconhecido. O coração bate como num primeiro encontro. A que gêneros ignorados de sono, de sonhos, o recém-chegado vai nos conduzir? Ele está agora dentro de nós, tem a direção do nosso pensamento. De que maneira nos fará adormecer? E o tendo feito, por quais caminhos estranhos, sobre quais picos, a quais precipícios inexplorados o mestre todo-poderoso nos conduzirá? Que novo agrupamento de sensações conheceremos nessa viagem? Vai nos levar ao mal-estar? À beatitude? À morte? A de Bergotte sobreveio na véspera daquele dia, quando se entregara em confiança a um desses amigos (amigo, inimigo?) poderoso demais.

Morreu nas seguintes circunstâncias: uma crise leve de uremia foi motivo para que lhe prescrevessem repouso. Mas, tendo um crítico escrito que na Vista de Delft, de Ver Meer (emprestado pelo Museu de Haia para uma exposição holandesa), quadro que ele adorava e acreditava conhecer bastante bem, um pequeno pedaço de parede amarela (do qual não se lembrava) era tão bem pintado que, visto sozinho, era como uma preciosa obra de arte chinesa, de uma beleza que se bastava em si mesma, Bergotte comeu umas batatas, saiu e entrou na exposição. Logo nos primeiros degraus que teve de subir foi tomado por tonturas. Passou diante de vários quadros e teve a impressão de secura e inutilidade de uma arte tão artificial, e que não valia as correntes de ar e o sol de um palazzo de Veneza, ou de uma simples casa à beira-mar. Chegou enfim diante do Ver Meer que ele recordava mais intenso, mais diferente de tudo o que conhecia, mas onde, graças ao artigo do crítico, reparou pela primeira vez os pequenos personagens de azul, que a areia era rosa, e por fim a preciosa matéria do pequenino pedaço de parede amarela. Suas tonturas aumentaram; fixou o olhar, como uma criança na borboleta amarela que quer pegar, no precioso pedaço de parede. “É assim que eu deveria ter escrito, dizia ele. Meus últimos livros são secos demais, seria preciso passar várias camadas de cor, tornar minha frase preciosa em si mesma, como esse pequeno pedaço de parede amarela.” Enquanto isso a gravidade das suas tonturas não lhe escapava. Numa balança celeste lhe aparecia, pesando num dos pratos, a sua própria vida, enquanto o outro continha o pequeno pedaço de parede tão bem pintado de amarelo. Sentia que imprudentemente havia dado a primeira pelo segundo. “Mas eu não gostaria, disse a si mesmo, de ser para os jornais vespertinos a nota pitoresca dessa exposição.” Ele se repetia: “Pequeno pedaço de parede amarela com um alpendre, pequeno pedaço de parede amarela.” Nisso deixou-se cair sobre um canapé circular; também bruscamente parou de pensar que a sua vida estava em jogo e, voltando ao otimismo, se disse: “É uma simples indigestão que me deram umas batatas malcozidas, não é nada.” Um novo golpe o abateu, ele rolou do canapé para o chão, aonde acorreram todos os visitantes e vigias. Estava morto. Morto para sempre? Quem o pode dizer? Claro que as experiências espíritas não fornecem mais provas do que os dogmas religiosos de que a alma subsiste. O que se pode dizer é que tudo se passa na nossa vida como se nela entrássemos com o fardo de obrigações contraídas numa vida anterior; não há nenhuma razão nas nossas condições de vida sobre esta terra para que nos acreditemos obrigados a fazer o bem, a ser delicados, mesmo a ser polidos, nem para que o artista ateu se acredite obrigado a recomeçar vinte vezes um trecho cuja admiração que suscitará importará pouco a seu corpo comido pelos vermes, como o pedaço de parede amarela que pintou com tanta ciência e refinamento um artista para sempre desconhecido, mal e mal identificado pelo nome de Ver Meer. Todas essas obrigações que não têm a sua confirmação na vida presente parecem pertencer a um mundo diferente, fundado na bondade, no escrúpulo, no sacrifício, um mundo inteiramente diferente desse aqui, e do qual saímos para nascer nessa terra, antes talvez de a ele retornar e reviver sob o império dessas leis desconhecidas, às quais obedecemos porque portamos o ensinamento delas em nós, sem saber quem aí as traçou, essas leis das quais todo trabalho profundo da inteligência nos aproxima e que são invisíveis somente – e se tanto! – aos tolos. De modo que a ideia de que Bergotte não estava morto para sempre não é inverossímil.

Enterraram-no, mas no velório todo, nas estantes iluminadas, os seus livros, dispostos de três em três, velavam como anjos com as asas abertas e pareciam, para aquele que não existia mais, o símbolo da sua ressurreição.



(Em busca do tempo perdido: A prisioneira; tradução de Mario Sergio Conti)



[1]A edição Pléiade diz que a formulação não é de Anaxágoras, filósofo grego do século V a.C., e sim de Sêneca, pensador romano do tempo de Cristo.




(Ilustração:  Vermeer - view of Delft)



terça-feira, 10 de outubro de 2017

METADE PÁSSARO, de Murilo Mendes






A mulher do fim do mundo

Dá de comer às roseiras,

Dá de beber às estátuas,

Dá de sonhar aos poetas.



A mulher do fim do mundo

Chama a luz com um assobio,

Faz a virgem virar pedra,

Cura a tempestade,

Desvia o curso dos sonhos,

Escreve cartas ao rio,

Me puxa do sono eterno

Para os seus braços que cantam.



(Antologia Poética)




(Ilustração: Georgy Kurasov ; everything with a twist)





sábado, 7 de outubro de 2017

ENSINAR EXIGE ALEGRIA E ESPERANÇA, de Paulo Freire








O meu envolvimento com a prática educativa, sabidamente política, moral, gnosiológica, jamais deixou de ser feito com alegria, o que não significa dizer que tenha invariavelmente podido criá-la nos educandos. Mas, preocupado com ela, enquanto clima ou atmosfera do espaço pedagógico, nunca deixei de estar.


Há uma relação entre a alegria necessária à atividade educativa e a esperança. A esperança de que professor e alunos juntos podemos aprender, ensinar, inquietar-nos, produzir e juntos igualmente resistir aos obstáculos à nossa alegria. Na verdade, do ponto de vista da natureza humana, a esperança não é algo que a ela se justaponha.


A esperança faz parte da natureza humana. Seria uma contradição se, inacabado e consciente do inacabamento, primeiro, o ser humano não se inscrevesse ou não se achasse predisposto a participar de um movimento constante de busca e, segundo, se buscasse sem esperança. A desesperança é negação da esperança.


A esperança é uma espécie de ímpeto natural possível e necessário, a desesperança é o aborto deste ímpeto. A esperança é um condimento indispensável à experiência histórica. Sem ela, não haveria História, mas puro determinismo. Só há História onde há tempo problematizado e não pré-dado. A inexorabilidade do futuro é a negação da História.


É preciso ficar claro que a desesperança não é maneira de estar sendo natural do ser humano, mas distorção da esperança. Eu não sou primeiro um ser da desesperança a ser convertido ou não pela esperança. Eu sou, pelo contrário, um ser da esperança que, por “n” razões, se tornou desesperançado. Daí que uma das nossas brigas como seres humanos deva ser dada no sentido de diminuir as razões objetivas para a desesperança que nos imobiliza.


Por tudo isso me parece uma enorme contradição que uma pessoa progressista, que não teme a novidade, que se sente mal com as injustiças, que se ofende com as discriminações, que se bate pela decência, que luta contra a impunidade, que recusa o fatalismo cínico e imobilizante, não seja criticamente esperançosa.


A desproblematização do futuro numa compreensão mecanicista da História, de direita ou de esquerda, leva necessariamente à morte ou à negação autoritária do sonho, da utopia, da esperança. É que, na inteligência mecanicista e portanto determinista da História, o futuro é já sabido. A luta por um futuro assim “a priori” conhecido prescinde da esperança. A desproblematização do futuro, não importa em nome de quê, é uma violenta ruptura com a natureza humana social e historicamente constituindo-se.


Tive, recentemente em Olinda, numa manhã como só os trópicos conhecem, entre chuvosa e ensolarada, uma conversa, que diria exemplar, com um jovem educador popular que, a cada instante, a cada palavra, a cada reflexão, revelava a coerência com que vive sua opção democrática e popular. Caminhávamos, Danilson Pinto e eu, com alma aberta ao mundo, curiosos, receptivos, pelas trilhas de uma favela onde cedo se aprende que só a custo de muita teimosia se consegue tecer a vida com sua quase ausência – ou negação –, com carência, com ameaça, com desespero, com ofensa e dor. Enquanto andávamos pelas ruas daquele mundo maltratado e ofendido eu ia me lembrando de experiências de minha juventude em outras favelas de Olinda ou do Recife, dos meus diálogos com favelados e faveladas de alma rasgada.


Tropeçando na dor humana, nós nos perguntávamos em torno de um sem-número de problemas. Que fazer, enquanto educadores, trabalhando num contexto assim? Há mesmo o que fazer? Como fazer o que fazer? Que precisamos nós, os chamados educadores, saber para viabilizar até mesmo os nossos primeiros encontros com mulheres, homens e crianças cuja humanidade vem sendo negada e traída, cuja existência vem sendo esmagada?


Paramos no meio de um pontilhão estreito que possibilita a travessia da favela para uma parte menos maltratada do bairro popular. Olhávamos de cima um braço de rio poluído, sem vida, cuja lama e não cuja água empapa os mocambos nela quase mergulhados. “Mais além dos mocambos”, me disse Danilson, “há algo pior: um grande terreno onde se faz o depósito do lixo público.


Os moradores de toda esta redondeza ‘pesquisam’ no lixo o que comer, o que vestir, o que os mantenha vivos”. Foi desse horrendo aterro que há dois anos uma família retirou de lixo hospitalar pedaços de seio amputado com que preparou seu almoço domingueiro. A imprensa noticiou o fato que citei horrorizado e pleno de justa raiva no meu último livro À sombra desta mangueira.


É possível que a notícia tenha provocado em pragmáticos neoliberais sua reação habitual e fatalista em favor sempre dos poderosos. “É triste, mas, que fazer? A realidade é mesmo esta.” A realidade, porém, não é inexoravelmente esta. Está sendo esta como poderia ser outra e é para que seja outra que precisamos os progressistas de lutar.


Eu me sentiria mais do que triste, desolado e sem achar sentido para minha presença no mundo, se fortes e indestrutíveis razões me convencessem de que a existência humana se dá no domínio da determinação. Domínio em que dificilmente se poderia falar de opções, de decisão, de liberdade, de ética. “Que fazer? A realidade é assim mesmo”, seria o discurso universal. Discurso monótono, repetitivo, como a própria existência humana. Numa história assim determinada as posições rebeldes não têm como tornar-se revolucionárias.


Tenho o direito de ter raiva, de manifestá-la, de tê-la como motivação para minha briga tal qual tenho o direito de amar, de expressar meu amor ao mundo, de tê-lo como motivação de minha briga porque, histórico, vivo a História como tempo de possibilidade não de determinação. Se a realidade fosse assim porque estivesse dito que assim teria de ser não haveria sequer por que ter raiva. Meu direito à raiva pressupõe que, na experiência histórica da qual participo, o amanhã não é algo “pré-dado”, mas um desafio, um problema. A minha raiva, minha justa ira, se funda na minha revolta em face da negação do direito de “ser mais” inscrito na natureza dos seres humanos.


Não posso, por isso, cruzar os braços fatalistamente diante da miséria, esvaziando, desta maneira, minha responsabilidade no discurso cínico e “morno”, que fala da impossibilidade de mudar porque a realidade é mesmo assim. O discurso da acomodação ou de sua defesa, o discurso da exaltação do silêncio imposto de que resulta a imobilidade dos silenciados, o discurso do elogio da adaptação tomada como fado ou sina é um discurso negador da humanização de cuja responsabilidade não podemos nos eximir.


A adaptação a situações negadoras da humanização só pode ser aceita como consequência da experiência dominadora, ou como exercício de resistência, como tática na luta política. Dou a impressão de que aceito hoje a condição de silenciado para bem lutar, quando puder, contra a negação de mim mesmo. Esta questão, a da legitimidade da raiva contra a docilidade fatalista diante da negação das gentes, foi um tema que esteve implícito em toda a nossa conversa naquela manhã.




(Ilustração: Frederic Watts  - Hope - L'Espoir, 1886)


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

THE FRAGMENT / O FRAGMENTO, de Seamus Heaney

  





                            "Light came from the east," he sang,

"Bright guarantee of God, and the waves went quiet.

I could see headlands and buffeted cliffs.

                                 Often, for marked courage, fate spares the man

It has not marked already."


And when their objection was reported to him--

That he had gone to bits and was leaving them

Nothing to hold on to, his first and last lines

Neither here nor there----

                                       "Since when," he asked,

"Are the first line and the last line of any poem

Where the poem begins and ends?"




Tradução de Vasco Graça Moura:




"Veio a luz do oriente", cantava ele,

"radiosa garantia de Deus, e as ondas aquietaram-se.

Eu podia ver línguas de terra e rochedos acossados.

Muitas vezes, pela coragem mostrada, o fado poupa o homem

se não o marcou já."

E quando a objecção deles lhe foi dita -

em especial que a sua obra se fizera em fragmentos,

que já não podiam dizer onde estavam com ele,

que já não distinguiam primeira linha ou última linha -

respondeu com uma questão.

"Desde quando", perguntou,

a primeira e a última linha de qualquer poema

são onde o poema principia e termina?"




(Ilustração: Joyce Coco - interruptions)



domingo, 1 de outubro de 2017

O LIMÃO, de Motojiro Kajii







Uma nuvem pesada dominava meu espírito. A sensação não era de irritação ou tédio; parecia mais como se tivesse entrado em uma profunda ressaca depois de noites e noites bebendo muito. A tuberculose e o esgotamento nervoso não eram os culpados. E nem mesmo a minha assustadora dívida. Era apenas aquele peso indefinível. Me afastou da música e da poesia que tanto amei — se incomodava alguém para que me colocasse uma música, sentia a necessidade de partir depois de poucas notas. Tudo o que conseguia fazer era vagar sem destino pelas ruas.


Me sentia atraído por coisas que apresentavam um toque de beleza decadente. As vizinhanças decrépitas eram os lugares que preferia e dentro delas não eram as grandes ruas, impessoais, que me pareciam simpáticas, mas sim os becos sujos com aquelas roupas manchadas penduradas a secar e as trilhas de lixo atirado pelo chão. Espiar nas janelas dos quartinhos miseráveis que davam para os becos também me era prazeroso. Entre aquelas frágeis casas com paredes de barro decompostas, que o vento e a chuva em breve iriam devolver à terra, a força da vida apenas se sentia nas plantas, na surpresa inesperada do desbotar de um girassol ou de solitário botão de flor.


Às vezes, enquanto caminhava por aquelas ruas, tentava imaginar que escapara de Quioto para uma cidade distante onde ninguém me conhecia. Sendai talvez ou Nagasaki. Teria de ser um lugar tranquilo. Um quarto em um pequeno hotel, grande e vazio. Lençóis imaculados, o aroma da tenda contra mosquitos e um quimono de verão, recém-engomado. Poderia passar um mês deitado ali, sem pensar em nada. Sentia que se desejasse com muita força, poderia transformar o lugar onde estava naquele que imaginava… E quando as imagens se formaram, comecei a pintá-las, uma a uma, com as cores de minha preferência, até que elas pudessem ser sobrepostas àquelas vizinhanças dilapidadas. Então, e apenas então, podia sentir o prazer de perder de vista a minha real existência.


Eu também me confortava em admirar as caixas de fogos de artifício baratos. Alguns vinham alinhados em pacotinhos grosseiros vermelhos, púrpura, ouro e azul e tinham nomes como “Estrelas Cadentes do Templo Chusanji”, “Guerra de Flores” e “Pálidas Palmeiras”. Outros, conhecidos como “estalidos de rato”, eram montados em um catavento dentro das caixas. Coisas como estas atraíam a atenção.


Contas de vidro colorido eram tesouros para mim — bolinhas com desenhos de peixes e flores em relevo, contas de Nanking. Ficar rolando aquelas bolinhas dentro da minha boca dava-me um grande prazer, seu gosto tinha uma sutil e singular frescura. Quando criança, meus pais me chamavam a atenção por este tipo de comportamento. Agora, talvez porque o abatimento fizera estas doces memórias de infância ainda mais queridas, havia algo especialmente poético sobre a beleza daquela fresca e delicada sensação em minha boca.


Como você já deve ter percebido, eu estava completamente debilitado. E o fato de que aquelas pequenas coisas, ainda que ligeiramente, podiam tocar meu coração, fazia com que sua compra fosse um luxo necessário. Questão de alguns centavos — mas ainda assim, uma extravagância, um detalhe de beleza, que ainda podia excitar meus frágeis sentidos. Em resumo, um consolo natural.


Quando ainda estava bem, eu adorava passar meu tempo em lojas de departamentos, como a Maruzen, com suas prateleiras repletas de artigos importados. Garrafas vermelhas e amarelas de eau-de-cologne e eau-de-quinine. Frascos de perfume elegantemente decorados com relevos bem trabalhados, cor de âmbar e de jade. Cachimbos e canivetes, sabonetes e tabaco. Depois de uma hora de busca criteriosa, eu teria esbanjado na compra de uma lapiseira da melhor qualidade. Agora, contudo, Maruzen se transformara em um lugar opressivo e asfixiante. Os livros, os estudantes, os caixas — todos eles me apavoravam como se fossem cobradores fantasmas.


Uma manhã — eu estava me hospedando em alojamentos de amigos, mudando de um para outro — meu anfitrião naquele dia foi para a universidade, me abandonando em seu quarto vazio. Não tive outra escolha que retomar meus passeios. Uma força qualquer foi me levando de uma pequena rua a outra, me fez parar em frente a uma loja de doces, depois me levou até uma mercearia onde passei um bom tempo olhando para o peixe seco e o tofu em conserva. Dali, fui vagando pela Teramachi até a Avenida Nijo, parando finalmente em frente a uma loja de frutas e verduras.


Talvez eu deva apresentar este estabelecimento, já que era a minha loja favorita entre todas. Na aparência, não se destacava, ainda que representasse bem aquela beleza especial que este tipo de loja possui, mais do que qualquer outro lugar que tivesse visto. Suas frutas estavam dispostas em uma banca inclinada de madeira negra laqueada e lascada na ponta. Tinham sido arrumadas de uma forma que sua cor e volume pareciam congelados no tempo e no espaço, como um grupo de dançarinos que tivesse olhado para a cabeça da Medusa e se transformado em pedra. Mais ao fundo na loja, os vegetais estavam empilhados em prateleiras cada vez mais altas. As folhas da cenoura pareciam radiantes e os legumes e os vegetais brilhavam com gotas de água.


A tenda era ainda mais bonita à noite. Inundada com a luz de suas vitrines, Teramachi é uma rua cheia de vida, ainda que bem mais tranquila que suas equivalentes em grandes cidades como Tóquio e Osaka. Ainda assim a vizinhança daquela loja em particular era curiosamente escura. Na verdade, estava na esquina da melancólica Avenida Nijo, mas isso não explicava por que aquela área tão vizinha à Teramachi era tão pobremente iluminada. Se aquela área estivesse mais clara, entretanto, duvido que tivesse me encantado tanto. O toldo saltava adiante como se fosse a aba de um chapéu puxada para cima dos olhos. (Isso não é exagero poético — o lugar realmente dava vontade de sair gritando “olha para aquela barraca com seu bonezinho abaixado”.) Sem luzes ao lado para competir, e com a escuridão acima, a fileira de lâmpadas elétricas penduradas por baixo do toldo banhava os produtos como uma brilhante chuva de verão. Vista da rua, onde os focos descobertos provocavam espirais de luz que penetravam em meus olhos, ou da janela do segundo andar do Café do outro lado da rua, havia poucos lugares em Teramachi que me inspiravam tanto como aquele.


Naquele dia em particular, eu tomei a decisão inesperada de fazer uma compra ali. Uma coisa rara estava à venda — limões. Óbvio que limões não eram incomuns em lojas mais elegantes, mas aquela barraca dificilmente poderia ser considerada como acima da média e por isso raramente exibia aquele produto, ou pelo menos eu não tinha notado antes. E, meu Deus, como sou loco por aqueles limões: sua cor, como um punhado de puro “amarelo-limão” espremido de um tubo de tinta; sua forma, uma circunferência perfeitamente comprimida… Decidi comprar um. Depois, voltei a vagar pelas ruas de Quioto. Caminhei por um bom tempo. Me sentia inesperadamente feliz, como se toda aquela nuvem pesada que sentia havia tanto tempo sobre mim tivesse ficado mais leve no momento em que senti nas mãos a minha nova aquisição. Um paradoxo incompreensível talvez, mas verdadeiro — minha teimosa melancolia tinha sido enganada por uma simples fruta. Como é estranho o espírito humano!


A frescura do limão superava qualquer descrição. Naquele momento, minha tuberculose tinha piorado a ponto de que estava permanentemente febril. Acho que podia mostrar a meus amigos e conhecidos quão doente estava simplesmente por um aperto de mãos, já que a minha estava sempre mais quente. Talvez por causa daquele calor, eu sentia que a frescura do limão estava penetrando através da minha palma e refrescando todo o meu corpo.


Várias e várias vezes, levei a fruta até o nariz para sentir seu perfume. Imagens da Califórnia, sua origem provável, vinham a minha mente entremeadas de trechos do clássico chinês O mercador de frutas que eu estudara na escola — “invadindo o nariz” era a frase que lembrava. E quando enchia meus pulmões com aquele perfume, um jato de sangue aquecido parecia correr pelo meu corpo, despertando minha vitalidade. Pensei que nunca antes tinha respirado tão profundamente.


A ideia de que na simples sensação de frescura, textura, perfume e forma eu tinha me deparado com o que estava procurando por tanto tempo parece agora estranha. Mas naquele momento eu sentia vontade de gritar de cima do teto das casas.


Meus passos ficaram mais animados, avancei com excitação crescente e mesmo orgulho, me imaginando, em alguns momentos, como um poeta elegantemente vestido que caminhasse pomposamente pelos bulevares. Observei o limão bem de perto, em contraste com o meu lenço sujo, e depois contra o meu capote, para sentir melhor como suas cores refletiam sua textura, e depois apertei em minhas mãos alertando a todos de sua perfeição. Era isso que tinha me cansado de procurar, o peso perfeito, a somatória absoluta de todas as coisas boas e bonitas — este pensamento me pareceu fascinante. Considerando tudo, eu estava abençoadamente feliz.


Como cheguei lá eu não sei, mas subitamente me dei conta de que estava em frente da loja de departamentos Maruzen. Ainda que a estivesse evitando, naquele momento não senti nenhuma dúvida em cruzar a porta e entrar. Vamos tentar, pensei, e caminhei altivo por suas portas.


Curiosamente, por alguma razão, aquela sensação de bem-estar que preenchia meu coração começou a se esvanecer no momento em que entrei ali. As prateleiras de perfume e tabaco me deixaram frio. Eu podia sentir minha depressão levantando sua cabeça outra vez, e pensei que talvez fosse devido ao cansaço depois da longa caminhada. Me dirigi à seção de livros de arte. Será que ainda tinha energia suficiente para levantar, ainda que fosse apenas um, aqueles livros pesados? E ainda assim consegui baixá-los da estante e abri-los, um após outro. Isso no entanto foi tudo o que fiz — não desejava examiná-los com atenção. Como que enfeitiçado, eu ia compulsivamente baixando um livro atrás do outro; dava uma rápida olhada, e passava ao próximo sem retornar nenhum à estante. A ideia de continuar fazendo aquilo me parecia insuportável. O último livro que escolhi era um dos meus favoritos, uma enorme encadernação dourada com os trabalhos de Ingres. E era o mais pesado de todos. Maldição! Senti aquela fadiga debilitando meus braços enquanto revirava aquela pilha de livros que tinha criado. Sentia que minha depressão tinha retornado com força total.


No passado, eu folheava com prazer livros como aqueles, saboreando o estranho contraste entre suas lindas ilustrações e a decoração monótona da loja. Por que eles não me atraíam mais?


Assustado eu me lembrei do limão guardado na manga do quimono. E se tentasse colocá-lo no alto daquela confusa coleção de cores, que será que aconteceria?


Aquela agradável delicada explosão de entusiasmo que tinha sentido antes retornou. Empilhei os livros ao acaso formando uma torre, derrubei com força e empilhei outra vez. Novos livros das estantes foram adicionados àquela pilha, removidos e depois substituídos por outros, assumindo a forma de um castelo de sonhos, primeiro vermelho e depois azul.


Finalmente estava terminada. Controlando o palpitar do meu coração, coloquei cuidadosamente o limão no topo daquele castelo. Era uma combinação perfeita.


Enquanto admirava meu trabalho, silenciosa e serenamente o limão sugou todas aquelas cores envolventes para dentro de sua circunferência. Dentro daquele ambiente bolorento da Maruzen aquele ponto sozinho parecia produzir uma estranha tensão. Permaneci ali alguns momentos, apenas olhando para aquela torre.


Subitamente fui surpreendido por outra ideia insólita: por que não deixar o limão ali onde ele inocentemente descansava e caminhar para a saída.


Um estranho sentimento cresceu em mim. “Devo? Por que não!” Furtivamente deixei o edifício.


Lá fora, na rua, aquele estranho sentimento levou-me a rir. Que tipo de vilão era eu que tinha deixado aquela cintilante bomba dourada armada entre as estantes da Maruzen. Se aquela bomba realmente explodisse com violência no coração da seção de livros de arte em dez minutos, seria emocionante.


“E então.” Continuei entusiasmado perseguindo aquela visão, “nada restara daquele lugar opressivo além de um monte de poeira”.


Saí caminhando pelas ruas de Kyogoku decoradas com aqueles grotescos cartazes coloridos de cinema.




(The Oxford book of Japanese short stories, organizada por Theodore William Goosen, e traduzido ao português por Marcelo Antinori a partir da versão inglesa traduzida do japonês por Robert Ulmer)




(Ilustração de Theo Szczepanski para o conto o limão de Kajii)



quinta-feira, 28 de setembro de 2017

COISAS DE LUZ ANTIGAS, de Ana Luísa Amaral







Aquele namorado que tinha

um nome bom: há quanto tempo foi?

A vida resvalante como gelo

e aquele namorado de nome bom

e férias, ficou perdido em luz,

mais de vinte anos.



Deu-me uma vez a mão

um beijo resvalante à hora de deitar

e na pensão. Mas tinha um nome bom.

falava de cinema e calçava de azul

e um bigode curtinho,

que escorregou aceso como gelo

no centro da pensão.



Rasguei as cartas dele

há quinze anos, em dia de gavetas

e de luz, e nem fotografia me ficou

de desarrumação. Mas tinha um nome bom,

falava de cinema e calçava de azul

e resvalou-me quente como gelo

à hora de deitar:



um namorado sem falar

de amor



(que a timidez maior

e o quarto dos meus pais

nessa pensão

no mesmo corredor)





(Ilustração: John Bull - Couples argument)



segunda-feira, 25 de setembro de 2017

ELA, A DOR, de Leon Tolstói







Ivan Ilitch via que estava morrendo e desesperava-se.

No fundo do coração sabia que estava indo embora e, longe de acostumar-se com a ideia, simplesmente não conseguia entendê-la.

O exemplo de um silogismo que aprendera na Lógica de Kiezewetter, “Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal”, parecera-lhe a vida toda muito lógico e natural se aplicado a Caio, mas certamente não quando aplicado a ele próprio. Que Caio, ser abstrato, fosse mortal estava absolutamente correto, mas ele não era Caio, nem um ser abstrato. Não: havia sido a vida toda um ser único, especial. Fora o pequeno Vanya, com mamãe e papai e Mita e Volodya, com brinquedos e um tutor e uma babá; e mais tarde com Kátia e todas as alegrias e prazeres da infância, da adolescência e da juventude. O que sabia Caio do cheiro da bola de couro de que Vanya tanto gostava? Por acaso era Caio quem beijava a mão de sua mãe e escutava o suave barulho da seda de suas saias? Foi por acaso Caio quem se envolveu em protestos quando estudante de Direito? Foi Caio quem se apaixonou? Quem presidiu sessões como ele?

E Caio certamente era mortal e era mais do que justo que morresse, mas ele, o pequeno Vanya, Ivan Ilitch, com todos os seus pensamentos e emoções, é completamente diferente. Não pode ser verdade, isto seria terrível demais.

Era assim que se sentia por dentro.

“Se eu tinha que morrer, assim como Caio, deveriam ter-me avisado antes. Uma voz dentro de mim desde o início deveria ter-me dito que seria assim. Mas não havia nada em mim que indicasse isso; eu e todos os meus amigos sabíamos que no nosso caso seria diferente. E eis que agora... Não... não pode ser e no entanto é assim! Como entender isso?”

E não conseguia compreender e tentava desviar seus mórbidos e desesperançados pensamentos e substituí-los por outros mais razoáveis, mais saudáveis, mas a ideia – e não apenas a ideia, mas a realidade tal qual se apresentava – voltava a todo momento para enfrentá-lo.

E ele buscava outros pensamentos para pôr no lugar desses, um depois do outro, na esperança de encontrar alento. Tentou voltar a antigos pensamentos que no passado o haviam protegido contra a ideia da morte. Mas, estranhamente, tudo aquilo que antes costumava encobrir, obscurecer e destruir o sentimento de morte já não fazia mais o mesmo efeito. Ivan Ilitch passava agora a maior parte do seu tempo nessas tentativas de reencontrar a antiga proteção mental que mantinha a morte fora de sua vista. Dizia-se a toda hora: “Vou retomar minhas atividades – afinal de contas eu vivia para o meu trabalho!”. E afastando todas as dúvidas, ia para o Tribunal, começava a conversar com seus colegas e sentava em sua cadeira com ar distraído, como era de hábito. Observava as pessoas com olhar pensativo e, descansando suas mãos magras no braço da cadeira, como sempre fazia, inclinava-se para um colega e, puxando os papéis para perto de si, sussurravam trocando impressões e então, subitamente levantando os olhos e endireitando-se na cadeira, pronunciava as tradicionais palavras que davam início à sessão. Mas, abruptamente, no meio disso tudo, a dor no lado, não importando a etapa do trabalho em que se encontrasse, surgia e impunha-se. Ivan Ilitch, assim que tomava consciência dela, tentava desviar o pensamento, mas ela resistia, teimosa. A dor chegava e postava-se frente a ele, olhando-o, afrontando-o, e ele enrijecia de pavor, a visão escurecia e perguntava-se se ela, a dor, existia realmente. E seus colegas e subordinados notavam com surpresa e pesar que ele, o juiz brilhante e arguto, estava se confundindo e cometendo erros. Tentava se recompor e recuperar o controle e conseguia, de alguma forma, encerrar a sessão, e voltava para casa com a triste certeza de que o trabalho já não podia, como antigamente, esconder dele o que queria que ficasse escondido e que suas atividades não podiam, definitivamente, livrá-lo dela! E pior do que tudo, ela chamava constantemente sua atenção, não para fazê-lo tomar alguma providência, mas simplesmente para fazê-lo olhar direto no seu rosto e, sem poder fazer nada, sofrer, sofrer indescritivelmente.

E para tentar salvar-se desse estado de espírito, Ivan Ilitch procurava alívio – novos abrigos – e encontrava proteções que por um momento pareciam salvá-lo, mas em seguida mostravam-se ineficazes, como se ela penetrasse em todos eles e nada pudesse tirá-la dali.

Algumas vezes, já tarde, ele ia até a sala de visitas que ele próprio havia mobiliado e decorado – aquela sala de visitas onde houve a queda por culpa da qual (e como isso lhe parecia irônico) estragara toda sua vida, pois sabia que sua doença se originara daquele machucado.

Entrava na sala e, notando que havia algum arranhão na mesa, procurava logo a causa e via que era a capa de bronze de um álbum fora do lugar. Pegava o valioso álbum que havia arrumado com tanto carinho e irritava-se com sua filha e as amigas por sua falta de cuidado – aqui e ali havia uma página rasgada ou uma fotografia de cabeça para baixo. Colocava tudo em ordem e punha o álbum de volta no lugar.

De repente ocorria-lhe mudar todos os álbuns de lugar e colocá-los no canto da sala onde estavam as plantas. Chamava o empregado, mas quem vinha em seu socorro era sua mulher ou sua filha, que nunca concordavam com ele, contrariavam-no e ele discutia e acabava se irritando. Mas estava tudo bem, desde que ele não pensasse nela. Ela não estava ali.

Mas bastava sua esposa dizer, assim que o via carregar ele mesmo alguma coisa: “Deixe que os empregados fazem isso, você vai se machucar outra vez” e imediatamente ela punha os olhos para dentro do abrigo que o protegia. Ele podia vê-la. Ela só dera uma espiada e ele tinha esperanças de que desaparecesse, involuntariamente. Via-se esperando por ela – e lá estava, a mesma de antes, doendo, doendo o tempo todo e agora já não podia esquecê-la e ela o olha atentamente por detrás das flores. “De que adianta isso tudo?”

“E a verdade é que perdi minha vida aqui, perto daquela cortina, assim como poderia tê-la perdido invadindo um forte. Dá para acreditar? Que coisa terrível! É ridículo! Não pode ser! Não pode ser, mas é!”

Ele então ia para seus aposentos, deitava-se e outra vez ficava a sós com ela. Cara a cara com ela. E não havia nada que ele pudesse fazer com ela, a não ser olhar e estremecer.



(A morte de Ivan Ilitch; tradução de Vera Karam)



(Ilustração: Joseph-Denis Odevaere - Lord Byron on his Death Bed; c. 1826)